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1º Episódio (março2020)
6min 12seg | Solagasta | Brasil
Movimento I
Março de 2020. Há notícias de um vírus mortal. As pessoas são instruídas a não sair de casa. Na sala de sua casa, um homem faz exercícios físicos desengonçados com um cabo de vassoura. Está desconfortável e desanimado. Insiste. O tempo escorre viscoso. Trancado e só. Sabe ou intui que esse entorno demasiado conhecido será, pelos próximos meses, seu estranho habitat. A casa não reconhece esse homem tanto ali. Ele busca fazer-se à vontade. Ganhar alguma intimidade. Tenta ler e se perde entre achados e esquecidos. O tempo pesa. O homem e seu cão contemplam a claridade que varia. Ele busca entreter-se. Acende e apaga a luz de mesa nascendo e pondo sóis de dias sempre iguais. Esperam? O tempo estático. Desfaz um crochê antigo, herança de família. O tempo é o que desata. Ele e seu cão. Sós. Enfim, um ruído na porta. O homem e seu cão se animam de curiosidade. Alguém? Outra vez o ruído: sim! alguém bate a porta. Quem? O ar a ventar sobre eles. O homem se prepara, sua casa feita novamente em recepção. Veste e ajeita a máscara no espelho. Salta o vão até a porta e nos fios espalhados pelo caminho, se embaraça. A mão na fechadura treme. Ele deseja, lembra e teme. Hesita. O giro da chave tranca a porta. O homem volta a sua poltrona. O cão, em seu coração destemido e sociável, não entende. Flutuam no vazio, astronautas em um planeta Alien.