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Âncora 2

8min 59seg  |   Solagasta    |  Brasil  

Âncora 1

3º Episódio 

Movimento III

 

Setembro de 2020. Os aparelhos. Celulares e computadores fazem parte de quase todas as atividades cotidianas. O homem hesitante oscila entre consumir e produzir conteúdo. O conteúdo vale por seu trânsito, não pelo que contém. O ruído é agora o grande rumor do incessante fluxo de tudo que passa quando nada acontece. O homem circula pelos seus aplicativos procurando um enganchamento provisório, algo que o detenha por um tempo na correnteza que passa pelo seu smartfone. Um curso de idiomas, um video divertido, um culto, uma aula de dança. SIM! Uma aula de dança! O corpo cansado de ser operador de máquinas quer algo mais que mover os dedos no teclado. Ele quer rebolar, lembrar-se de suas articulações. Ritmo é retomar uma existência no tempo e no espaço. O homem embala o corpo em movimento escapando do adestramento que fez dele um adereço para mesa, cadeira e cama. O corpo gira, os braços se estendem, as pernas fazem e desfazem ângulos. Mas os olhos não. Sua dança é contida pela necessidade de olhar para a tela: esse novo catecismo. É pra essa tela que ele tem que voltar sempre que esquece o próximo passo. Observar atentamente ao instrutor. Essa tela falha, ela trava e perde conexão. Ela avisa que vai apagar e pede por uma tomada. Ele se atrapalha entre cabos, e se irrita: o selvagem que ainda não desistiu de galopar. Respira. Talvez uma meditação seja melhor que uma dança, ele considera. Estica-se em asanas. O gato, a vaca, o cachorro olhando para baixo. Na tela o instrutor desliza entre posições que o homem tenta acompanhar, mas ele precisa olhar para tela, mas ele precisa do apoio de suas mãos, mas ele não pode girar a cabeça em 360 graus, e aquele cabo já deu um nó em sua perna. Ele constrói um dispositivo que acopla o smartfone a um pau de selfie, e amarra o pau em um capacete vestido em sua cabeça. É um coelho correndo entusiasmado atrás de uma cenoura virtual de uma pista em círculos. O homem amarrado a cabos, ciborgue de seus dispositivos. Bip bip, silêncio, bip, bip, silêncio, bip bip. Ele respira por aparelhos.

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