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2º Episódio
Movimento II
Junho de 2020. Enorme e apertada, a casa é tudo. Descansar, comer, divertir e trabalhar. O homem tem que trabalhar. Precisa fazer uma chamada no computador, essa maquina que é agora como a casa: para tudo. Tão privado e tão público. O homem olha-se na câmera. Ajeita a roupa. Estuda sua imagem. A vida de suas interações humanas mediadas pelos aparelhos tem sido assim: falar com o outro e ver-se falando. Dizer e apreender-se no gesto de dizer. Há roupas que ficam melhores com sua cor de pele, a depender do horário da chamada, da luz da sala, do fundo. Sim, isso que da casa se entrega ao mundo, o fundo a completar sua figura. Sua história recontada em uma prateleira. Alguns bibelôs foram feitos apenas para a intimidade, e ele os guarda. Alguns livros, mesmo que não lidos, são belíssimos, e ali estão. E roupas combinam com livros, que combinam com gestos, que combinam com palavras, que combinam com o que ele procura e perde de si. Ele estuda, calcula, roteiriza, ilumina e monta sua cena no semblante do computador. Sua roupa impecável, a luz favorecendo o aspecto sadio de sua pele, ao fundo livros selecionados e nada mais a contar detalhes de uma intimidade bem guardada. O cão também, é claro. Na superfície fina da videochamada tudo corre bem, alheio ao murmúrio de um mundo que não pára. Mas sons invadem e perturbam. Outra vez um ruído, vindo das vidas ao redor, que gemem, cantam, trovoam, penduram quadros, arrastam móveis, derrubam paredes e montam suas bem pensadas melhores versões de si mesmas. Ele busca um espaço mais privado. Refugia-se no banheiro, onde o som chega menos que o sinal da rede wi-fi.